
Por Kennedy Diógenes
No fim da década de 40, início de 50, do século passado, meu pai, Francisco Sebastião Diógenes, conhecido desde tenra idade por “Seu Chiquinho”, ingressou no Colégio Diocesano Santa Luzia, em Mossoró, para prosseguir seus estudos, uma vez que Pau dos Ferros não oferecia tais condições.
O Colégio Diocesano Santa Luzia, fundado em 02 de março de 1901, por Dom Adaulto Aurélio de Miranda, e mantido desde então pela Igreja Católica, sempre foi uma referência em educação de qualidade, passando por lá vários alunos que se transformaram em lideranças do Rio Grande do Norte, como os Ex-Governadores Dix-sept Rosado, Cortez Pereira, Tarcisio Maia e Lavoisier Maia, Ex-Prefeito de Mossoró e Ex-Senador Dix-huit Rosado, o Deputado Federal Vingt Rosado, dentre outros.
A partir de janeiro de 1946, o Diocesano foi dirigido pelo Padre Francisco Sales, nomeado pelo Bispo João Costa, deixando, como grande legado de sua administração, a construção da nova sede do Colégio Santa Luzia, inaugurada dez anos após, em 09 de junho de 1956.
Seu Chiquinho, como outros conterrâneos seus, passou pelo internato do Diocesano em uma época de extrema rigidez educacional, mormente sob a batuta do Padre Sales, mas que lhe propiciou uma riqueza de experiências naquela meninice, potencializada na mesma medida da distância e saudade dos seus familiares.
Acontece que, para amenizar a saudade e quebrar a monotonia clériga, a elaboração de um conjunto de peraltices, tantas quantas possam conceber as mentes férteis e criativas das crianças, era o principal lazer dos alunos do Diocesano, deixando alguns “causos” que merecem ser contados, como este que segue, dos sapatos mágicos.
Certo dia, no final de uma aula do Padre Gabriel, a turma começou um rebuliço danado, enquanto o equilibrado professor tentava controlar a situação. Seu Chiquinho, que sentava em uma das últimas fileiras, tirou uma folha de caderno, amassando-a e empapando-a com saliva, criando uma bola que foi arremessada em direção à primeira fileira de cadeiras, onde sentava um conterrâneo seu, Lineu, cuja rivalidade, naquele tempo, era bem acirrada.
O artefato jogado por Seu Chiquinho viajou de um lado ao outro da sala, acertando em cheio a orelha de Lineu, que, passando a mão na baba escorrida pelo pescoço, choramingou junto ao Professor já estressado, sendo este fato a gota d´água.
- Quem jogou esta bola de papel é um FP… Vocês sabem o que é FP? Bradou o Padre Gabriel, enfurecido, já suspeitando quem teria sido o autor da proeza.
Seu Chiquinho levanta a mão e diz: - FP, Padre, não é Francisco Pereira, aquele aluno que desistiu no semestre anterior?
O Padre Gabriel, irritadíssimo, expulsou Seu Chiquinho de sala, e ao mesmo tempo, veio se aproximando dele para, provavelmente, dar-lhe uma laborada com a palmatória. Mas Seu Chiquinho foi mais rápido, passando pela porta e puxando-a para fechar, fazendo com que o padre batesse com sua cabeça na quina desta, caindo ele próprio, seus óculos e tudo o mais que trazia nas mãos.
Com isso, o sacerdote-professor se intrigou de Seu Chiquinho, deixando de conversar e brincar com a turma, como antes se acostumara a fazer.
Alguns dias depois, estava Padre Gabriel sentado em um banco do pátio, lendo um breviário, quando Seu Chiquinho teve uma idéia. Foi ao seu quarto e pegou um par de sapatos usados que havia recebido de sua irmã, Cristina, calçando-os e se dirigindo ao lugar de recreio, a uma distância segura do professor. Jogou areia sobre alguns metros do cimento e fez carreira, deslizando sobre o piso do pátio, como se usasse patins. De lá do banco, o pároco ainda permanecia com os olhos no livro. Seu Chiquinho fez outra vez, deslizando uma distância maior do que a primeira. Quando se preparava para correr a terceira vez, o sisudo Padre Gabriel havia desaparecido para dar lugar ao velho e sorridente mestre, que aplaudia as manobras de Seu Chiquinho, pedindo que fizesse mais uma vez, fazendo as pazes definitivamente, graças aos sapatos mágicos.
Será que Tia Cristina não teria deixado guardado mais alguns desses sapatos mágicos, que tanto ajudam na reconciliação dos homens?