ALTERAÇÃO DE ENDEREÇO DO BLOG 

Primos,

Por razões técnicas, estamos migrando para um blog de outro endereço, mais abragente e com mais recursos.

Acessem: www.familiadiogenesnobrasil.blogspot.com.

Um abraço fraterno.

Kennedy Diógenes 

Fazenda Trigueiro

Fotos e texto sobre a Fazenda Trigueiro, no Município de Pereiro, ainda pertencente à descendentes da Família Diógenes, de autoria de Honorório de Medeiros (http://honoriodemedeiros.blogspot.com/2009/12/casa-grande-da-familia-diogenes-em.html). Alerto que algumas informações no texto estão equivocadas, principalmente quanto a origem da família.

Frente da Casa Grande.

Cumeeira.

 

Por Honório de Medeiros

Do final do século XVIII, e construída com areia trazida a pé, pelos escravos, do leito do rio Jaguaribe, a cem quilômetros de distância, a Casa Grande da Fazenda Trigueiro, postada próxima à margem da estrada entre São Miguel, Rio Grande do Norte, e Pereiro, Ceará, impressiona quem a vê desde a distância. “São trinta e oito compartimentos”, diz-nos Zé Denis, filho mais velho de Dona Deocides, a viúva Castelã. “Todos imensos”, penso eu, ao ser levado a cada um deles. “Imensos na largura e na altura”.

Peço à cozinheira para ficar próximo à janela da cozinha. Uma vez fotografada, dará uma noção do tamanho da janela – bem maior que ela, que deve ter um pouco mais que um metro e meio. Excetuando a cozinha, todos os outros compartimentos do térreo não têm janelas para fora e se comunicam com os vãos centrais. Se houvesse um ataque – índios, antes, cangaceiros, depois – a única porta que permite o acesso ao interior da casa seria fechada, todos subiriam para o andar superior – no qual ficam as janelas – e a defesa estaria garantida. “A porta funciona como uma ponte levadiça de castelos medievais”, eu digo, observando a chave imensa que a fecha, trazida, da Suíça, na época da construção.

As paredes têm quase um metro de largura. Ocultam segredos ancestrais, como ossos humanos, restos mortais de pessoas emparedadas sabe-se lá quando nem por que, semelhantes aos encontrados certa vez, quando se tentou estabelecer uma comunicação entre dois compartimentos. “Naquela época”, diz-nos Zé Denis, que já foi vereador em Pereiro, mas hoje se dedica a tomar conta da propriedade e da mãe, “como não havia “campo santo” (cemitério), as pessoas mais importantes eram sepultadas assim, acho que seguindo o exemplo das igrejas.” Cada detalhe chama a atenção: são biqueiras para escorrer a água da chuva, de cobre, reproduzindo a boca de um tubarão, também vindas da Suíça; os arabescos da cumeeira da Casa que, nos cantos, lembram um “s” deitado, mas, na realidade, são uma letra grega; a “sapata” – base na qual se assenta todo o imóvel -, que na parte anterior, dando para uma área enorme, como se fosse uma praça de chão batido, em torno da qual todas as construções são postadas, deve ter quase dois metros de altura. É o sótão, um andar inteiro, onde os escravos aguardavam, noite afora, o momento de sua morte, não por outro motivo denominado “quarto dos suplícios”…

“Noite de chuva, as tábuas rangendo, o barulho do vento, que tal Zé Denis”, pergunto. Ele fica sério. “Está vendo aquela casa ali do lado?” “Claro”, respondo. “Na década de oitenta fomos morar nela. Ficou insuportável viver aqui. Batiam as portas, rangiam as tábuas, as luzes apagavam inexplicavelmente, ouvíamos lamentos, arrastar de passos, desapareciam as coisas.” “Frei Damião”, prossegue, “esteve em São Miguel para uma de suas Missões e conseguimos falar com ele que veio aqui e realizou um exorcismo. Só assim pudemos voltar.” “Tinha que ser em Pereiro”, pensei ao me lembrar do episódio do cemitério, relatado antes. “Ficou tudo resolvido?” “Melhorou muito, mas ainda ontem, por duas ou três vezes, na hora do almoço, alguém bateu palmas e me chamou pelo nome, insistentemente. Quando eu saía para o pátio era o canto mais limpo.”

Dona Deocides nos mostra o local da sala onde estão as fotografias da família. Uma me chama imediatamente a atenção. Em sépia, os contornos de Dona Carolina Fernandes, viúva de Manoel Diógenes, o português construtor da Casa Grande da Fazenda Trigueiro. Uma Fernandes, assim como os da Casa Grande da Fazenda São João, em Marcelino Vieira; e os da Casa Grande da Fazenda Sabe Muito, em Caraúbas, as três maiores do Alto Oeste, salvo engano. Todos ligados por laços de parentesco com Matias Fernandes Ribeiro, o genro do fundador de Martins, Francisco Martins Roriz, e de sua esposa Micaela.

E-mail´s trocados

Segue e-mail de Mauro Diógenes sobre o artigo Patriarca da Família Diógenes, de 02 de fevereiro de 2010:

“Olá, Kennedy,

Só agora pude realmente ler os blogs. Parabéns. Eles São bem elaborados, com conteúdo de excelente nível, ao contrário da maioria dos blogs e mídia em geral) que existem por aí, repletos de mediocridade.

Gostei muito do artigo “O Patriarca da Família Diógenes”. A informação de que possivelmente não existiu a índia Maria da Purificação é surpreendente para mim que, desde criança, ouvia histórias sobre ela, cheias de detalhes da sua captura na serra do Pereiro - CE. Essas histórias fizeram parte do meu imaginário infantil. Quando eu andava a cavalo nas matas situadas no pé da serra das Melancias, imaginava-me diversas vezes lutando em defesa dos índios no meio dos grotões da serra, exatamente por causa dela. E por ela tornei-me, sem perceber, de forma espontânea e impensada, num defensor
dos índios e das nossas matas, quase num ‘ecochato’. Valeu o boi!

Um abraço. Mauro Diógenes”.

Resposta de Kennedy Diógenes, de 02/02/2010:

“Meu querido primo Mauro.
 
Você deve saber que suas palavras são sempre impactantes para mim, fermantadas, muitas vezes, pela sua generosidade. Aprecio e me orgulho de tê-lo, e aos seus, como primos, irmãos e amigos.
 
Quando me deparei com essa história, confesso que também fiquei chocado. Tive, como você, abalados os meus ideários familiares construídos em uma base indígena. Cresci ouvindo minha mãe falar sobre “o sangue da índia” que corria em nossas veias, quando queria falar do nosso gênio.
 
Até papai me disse, quando contei a estória pesquisada por Augusto Lima, que deixasse isso para lá, que deixasse a índia no lugarzinho dela mesmo… rssss.

Mas a verdade é que o primeiro Diógenes, e aí eu tive acesso ao batistério dele de 1698, chamou-se Manoel e foi batizado aqui em São Gonçalo do Amarante!
 
E a troca de raça, da índia pela negra, uma mestiça filha de um escravo lliberto de Domingos Paes Botão e uma moça portuguesa, rapidamente toma vultoso espaço em nosso imaginário. Naquela época, o casamento entre brancos e índios era tolerado, inclusive incentivado pelos jesuítas, que declararam ter, o índio, alma. Já o negro não possuía alma, era rés, e se apaixonar por mestiças, que, diga-se de passagem, eram belíssimas segundo relatos da época, era um crime contra a sociedade, contra a moral e contra a Igreja.
 
Assim, ao aceitar essa tese, deixamos de ser defensores dos índios e das matas e nos tranformamos em baluartes da igualdade, dos direitos humanos, desafiando tudo e todos em nome do amor. Fecho os olhos e até consigo vislumbrar as homéricas brigas de Domingos Paes Botão com seu filho, Manoel, contrário ao casamento, que denegreria o nome da família; da reprovação silenciosa de Genoveva, sua irmã, e seu nariz empinado, porque nobre e casada com a nobreza frígida e caquética de um já antiquado Portugal, que jamais aceitou a união de Manoel e Antônia, bem como seus rebentos (não se comprovou que Genoveva tenha sido madrinha de qualquer filho de Manoel); é possível imaginar, contudo, poucas mãos carinhosas na cabeça dos nubentes, de sua mãe, Sebastiana, e dos sogros, tão calejados na compreensão das incompreensões humanas, que, angustiados, acalentaram os sonhos de seus filhos.
 
O triste disso é que a estória pode ter sido mudada por vergonha. Encobrimos o sangue negro que corre em nossas veias por preconceito, quando devíamos nos orgulhar que um certo Luís Paes Botão, de Angola, que foi arrancado de seu lar e levado para um terra distante, tenha sobrevivido a travessia do Atlântico em porões imundos, e passado por uma vida de privações nas mãos daquele que um dia se tornaria pai de seu genro, gerando uma família com tantas conquistas como a nossa. O nosso amor aos animais, à terra, ‘as coisas do campo’, e a nossa aptidão ao trabalho combinam com a raça negra mais do que imaginamos.
 
E ainda que não houvesse nada disso, optaria por saber a verdade, simplesmente verdade.
 
Um grande e fraterno abraço.
 
Kennedy Diógenes.

Filho é suspeito de matar ex-prefeito

Abaixo transcrevo matéria publicada no Diário do Nordeste, de 29/01/2010, repassada por Licurgo Nunes Quarto, sobre a morte de Mardônio Diógenes.

“Crime pode estar ligado a uma briga na família pelos bens de Mardônio Diógenes. O filho dele é um suspeito.

Por ordem da Justiça, a Polícia Civil prendeu, ontem, no Município de Pereiro (a 330Km de Fortaleza), o universitário Francisco Telsângenes Diógenes, o ´Téo´, 27, estudante de Fisioterapia em Fortaleza; e o vaqueiro Francisco Rodrigues de Queiroz, o ´Chiquinho´. Os dois homens são os principais suspeitos de terem assassinado o ex-prefeito de Pereiro, Antônio Mardônio Diógenes Osório, 66. ´Téo´ é filho do político morto.

As investigações em torno do crime estão sendo presididas pelo delegado-regional de Polícia Civil de Jaguaribe, Edmar Beserra Granja. Segundo ele, o caso poderá ser esclarecido nos próximos dias. A Polícia segue duas linhas de investigações e o delegado havia requisitado da Justiça a prisão temporária dos dois suspeitos.

Ontem, o juiz daquela Comarca, Ricardo Emídio de Aquino Nogueira, expediu os mandados de prisão e outro de busca e apreensão. A Polícia fez diligências na Fazenda Campos, que pertencia ao ex-prefeito, prendeu ´Téo´ Diógenes e o vaqueiro e ainda apreendeu uma pistola de calibre 380 ACP e um rifle calibre 22. As duas armas serão submetidas à perícia.

A morte do ex-prefeito ocorreu na manhã do dia 31 de dezembro. A Polícia descobriu uma série de contradições nos depoimentos dos dois acusados e, ainda, litígios dentro da família do ex-prefeito. A mãe biológica de ´Téo´ havia conseguido anular o registro de nascimento em que o rapaz aparece como filho de Mardônio. Há ainda, disputa pelos bens do ex-prefeito. Para completar, o exame de parafina em ´Téo´ e no vaqueiro deram positivo”.

Algumas traquinagens de Tio Dedé

 Por Licurgo Nunes Quarto 

O Dr. José Diógenes Sobrinho, carinhosamente chamado de Tio Dedé por todos os sobrinhos, além de um excelente artesão em couro e sola (quando confeccionava “ligeiras” para tanger animais, cordas de laçar, cabrestos e outros artefatos inerentes às lides da fazenda), era grande Cirurgião Dentista, um excelente e zeloso Auditor da Receita Federal (se fosse desonesto teria enricado, tamanha  foi a quantidade de contrabando que apreendeu quando do exercício das suas funções na alfândega)  e, acima de tudo, é um  gozador emérito, um brincalhão incorrigível, um irrequieto a toda prova. E, dentro dessa sua característica de estar sempre bem humorado, protagonizou cenas e fatos hilariantes, que passo a enumerar alguns:

Pré adolescente, quando ainda morava em Pau dos Ferros, e era encarregado por Lafayete, seu pai, de comercializar o leite que sobrava do consumo interno da casa, arranjava um jeito – juntamente com o primo e amigo Paulo Diógenes – pois este era filho de Antístenes Diógenes, irmão de Lafayete – de  “vender” alguns litros de leite a uma  “freguesia”  pouco convencional:  as  “raparigas”  residentes no “rabo da gata”,  “cabaré”  muito conhecido, que ficava localizado na rua posterior à Av. da Independência, rua aonde moravam. Só que o pagamento do leite vendido às “respeitadas senhoras” não era feito em moeda corrente; não era realizado com o vil metal, e, sim, com “favores” que elas prestariam aos dois em momentos de lasciva, de conjunção carnal. O grande problema era no sábado, dia de feira, pois era o dia
em que Lafayete vinha da Fazenda Melancia para a Cidade, e quando, ao redor do mercado, todo mundo se encontrava. Não tardava em aparecer uma “dessas ilustres clientes” que procurava a dupla José Diógenes/Paulo tentando fazer acerto de contas. E aí era o maior sufoco que os dois passavam, pois temiam que Lafayete desconfiasse de alguma coisa e descobrisse  a intimidade deles com as  ditas “mulheres de vida fácil”.

Com quinze anos, Tio Dedé foi estudar em Mossoró, residindo na casa do cunhado Licurgo, à época Promotor de Justiça da Cidade.  Aliás, Licurgo era o único genro de Lafayete, pois, de uma prole de doze filhos do casal Lafayete/Alzira houve quatro mulheres, sendo que duas - Alda Diógenes Fernandes e Maria Jacira Diógenes Fernandes - morreram nos primeiros anos de vida. As outras duas, Cristina Diógenes Nunes e Maria Alzir Díógenes, apenas Cristina casou, vez que Maria Alzir Diógenes permaneceu solteira por toda a vida; uma celibatária convicta.A qualidade da água potável de Mossoró era da pior espécie. Com alto teor de salinidade, sua palatibilidade era muito ruim, quase  impraticável ao consumo humano. Para compensar tal deficiência, a maioria das residências da cidade tinha uma cisterna, que consistia num tanque muito grande aonde se “guardava” toda a água advinda das chuvas. Colocavam-se calhas no telhado das casas para, colhendo as águas pluviais, drená-las à citada cisterna. Reservatório cheio era sinal de garantia de água de boa qualidade para o ano todo.  Para se elevar essa água da cisterna para a caixa d’água, e conseqüente distribuição à toda a casa,  era necessário o uso de uma bomba hidráulica, à época muito rudimentar. Tinha-se que bombear, movimentando-se manualmente uma alavanca para se conseguir tal feito.  Referida bomba, para funcionar a contento, era necessário que, na sua instalação, os canos ficassem muito bem apertados, hermeticamente fechados de modo a não permitir a entrada de ar, sob pena de não funcionar.  Só que “Zé Diógenes descobriu isto. “E aí só deu prá ele”. Caixa d’água seca, tem-se que bombear a água da cisterna. Regina Jerônimo – por todos chamada de Tia – (doméstica que trabalhou na casa de Licurgo/Cristina por mais de cinqüenta anos) – dirige-se à malfadada bomba, começa a bombear, uma hora acionando, e nada de subir água. “Cristina, essa bomba está quebrada, faz uma hora que eu mexo nesse ferro e não sobe nada”, bradava Regina.  Zé Diógenes, que havia subido no telhado e destorcido um “suspiro” da encanação, recoloca o referido suspiro, e a bomba começa a funcionar.  “Voltou a funcionar, Cristina”, gritava Regina, exultante.  E Dedé, escondido no telhado, ficava alternando entre abrir e fechar o cano. Cada vez que fechava, a bomba funcionava; quando abria, a bomba parava de elevar água, provocando irritação da pobre Tia. Descoberta a traquinagem, deve ter sido severamente admoestado pela irmã Cristina.

Celina, esposa de José Diógenes, tinha duas irmãs solteiras -  “Mundica” e “Dona”. Ambas desdentadas, eram portadoras de próteses dentárias totais. À noite, antes de dormir, cada uma colocava as suas próteses em um copo com água, deixando-os ao lado da sua respectiva cama. Era um hábito que existia, pois os usuários temiam que, dormindo com as próteses, houvesse qualquer problema de asfixia por engasgo, ou mesmo porque as próteses de antigamente eram feitas com um ionômero volátil e perdiam dimensão quando passavam algum tempo fora de ambiente úmido. Conservá-las, portanto, durante a noite dentro de um copo com água era a solução. Tio Dedé, irreverente como tal, entrava à noite no quarto das cunhadas, sorrateiramente, e trocava os copos que continham as próteses. O que era de Dona passava a ser de Mundica, e vice versa. Manhã cedo, primeira providência delas ao acordar era colocar as próteses. E haja luta para adaptar. Puxa para um lado, mexe para o outro e nada. As próteses, moldadas para cada uma, por estarem trocadas, não encaixavam na outra.

Celina, muito católica e artista plástica - pinta telas como gente grande - participava de vários grupos, tanto católicos, como de aula de pintura.  Cada vez que ia para uma dessas reuniões, preparava, cuidadosamente e com todo esmero um lanche. Colocava-o em recipientes tupperware.  Era praxe, e todo participante do grupo ou aluno levava a sua “merenda”, que era compartilhada pelos demais colegas de sala na hora do “recreio”.  Só que Zé Diógenes, sem que Celina percebesse, retirava os quitutes dos respectivos depósitos, substituindo-os por feijão, arroz, rapadura, etc. Celina, na hora do lanche, ao abrir os recipientes e certa de que estavam as iguarias por ela aprontadas,  se deparava com os inusitados ingredientes trocados por Zé Diógenes.

A bicheira de Nanando.

 

Por Licurgo Nunes Quarto. 

O casal Lafayete Diógenes Maia/Alzira Fernandes Diógenes morava na “Fazenda Melancia”, situada pertinho de Pau dos Ferros, e mantinha, nesta Cidade, outra residência, que era aonde os filhos menores residiam e estudavam.

Dentre os filhos menores encontravam-se José Diógenes Sobrinho ( Dedé ),  Napoleão  Diógenes Fernandes ( Pipiu ), Antonio Diógenes Fernandes ( Toinho ), Fernando Diógenes Fernandes (Nanando ).  Francisco Sebastião Diógenes, o caçula, conhecido por Seu  Chiquinho, que,  por ser muito novo, ficava na Fazenda, na companhia dos pais.

Lafayete Diógenes, além da citada Fazenda Melancia, possuía mais duas glebas – a “Vazante”, localizada ( como o próprio nome aduz), à vazante do açude “25 de Março”, e o “Carvão”, na estrada que dá acesso à Cidade do Ereré/CE, ambas nas cercanias de Pau dos Ferros.

Os terrenos tinham especificações determinadas e características topográficas diferentes. A “vazante”, por ser bem úmida, pois se beneficiava da revência do citado açude, tinha água em abundância, e era um pomar, cheia de árvores frutíferas, como mangueiras, cajueiros, alem de uma plantação de capim, bem como abrigava o curral.  Já o “Carvão”, situado num altiplano, terreno seco, portanto, servia para a formação de pastagem natural e conseqüente engorda de gado, assim como  acolhia as vacas leiteiras durante o dia. Todo dia, cedinho, tinha-se que “tanger” as vacas do curral para o carvão, e à tardinha, fazer o percurso inverso.

Cada um dos filhos tinha tarefa determinada a  cumprir no dia-a-dia. Dedé, por exemplo, por ser o mais velho do grupo, e, conseqüentemente, mais “letrado”, era encarregado, dentre outras coisas, de distribuir, para comercialização, os produtos advindos da Fazenda tais como queijo,  rapadura, milho, feijão, o couro da “criação” abatida durante a semana, e todo e qualquer insumo agrícola produzido e que estivesse em excesso para o consumo da família, além de entregar o leite colhido no curral da vazante.

Os outros (Pipiu, Toinho e Nanando), com atribuições e tarefas mais amenas, tinham, também, as suas “obrigações”. E uma delas era pegar o leite, todo dia cedinho, no curral, levá-lo para casa e, depois, conduzir as vacas ao “carvão”, a fim de  que elas pudessem pastar.

Numa dessas idas com as vacas para a “manga”, Fernando (Nanando), o mais novo do trio, sentiu vontade de defecar; de expelir os excrementos; de soltar um barro, ou, no popular, de cagar. E com o beneplácito dos outros dois, e a título de traquinagem, resolveu fazer a sua necessidade fisiológica na calçada limpinha e bem cuidada da Dona Sinhá, comadre e amiga de Lafayete/Alzira, localizada vizinho ao “Carvão”.

Fez o “serviço” bem na entrada da porta principal, correu, e se juntou aos outros, ficando os três “escondidos “, à espreita,  a uma distância que  permitisse  ouvir os impropérios que, com certeza, haveriam de vir da  senhora moradora do imóvel ao perceber insólito fato. Não demorou muito e eis, quando chega a Comadre Sinhá à porta da casa, depara-se com o incomum “torpedo” inerte e silente a exalar odor característico e insuportável. “Quem terá sido o ‘felá da puta’ que fez esse serviço aqui na minha porta?”, bradou, enfurecida, a Dona Sinhá. “Do jeito que minhas rezas são fortes, vou rogar uma praga, e quem fez isso aqui na minha porta vai sofrer com uma “bicheira” que vai se formar bem no olho do cu”, complementou a inconformada e furiosa senhora.

Os três, amoitados e que a tudo ouviam, ficaram atordoados e impressionados com a maldição que havia sido desferida, principalmente Nanando, autor do feito. Tanto é que, constantemente, passou a pedir aos demais irmãos que verificassem se realmente estava ficando com uma bicheira no anus. Baixava o calção, ficava “de quatro”, e dizia: “Pipiu olha aqui se eu tô com uma bicheira”. “Toinho, dê uma olhadinha aqui; será que já peguei a bicheira”.

Certidão de Batismo. 20 de abril de 1698.

Recebi, por e-mail, uma certidão de batismo que me foi enviada pelo Prof. João Felipe Trindade, pesquisador e membro do recém criado Instituto de Genealogia do Rio Grande do Norte.

Registre-se que a fonte é o Pesquisador e escritor Prof. Fco. Augusto de Araújo Lima, membro do Instituto Histórico do Ceará, que garimpou vários desses documentos nos Cartórios e Igrejas Cearenses.

Segue a transcrição do e-mail recebido de João Felipe:

“No documento trabalhado por Francisco Augusto está simplificadamente escrito:

Aos 20.04.1698 na capela de Gonçalo do Potengi B. Diógenes f. de Domingos Paes Botão e de sua mulher Maria da Fonseca. Pad. O Capitão João da Fonseca e Bernarda da Fonseca filha da viúva Isabel Ferreira.
Obs. Este Diógenes deu origem à numerosa e ilustre família DIÓGENES na ribeira do Jaguaribe, que pesquisei e publiquei algo, pois tudo informado de modo distorcido pela tradição oral. Maria da Fonseca = Sebastiana da Assunção Fonseca Ferreira era irmãs dos sesmeiros: João Fonseca Ferreira e Antônio da Fonseca Ferreira, o primeiro aliado dos Feitosas na questão contra os MONTES de quem descendo.

A transcrição do documento é a seguinte:
“Em 20 de abril de 1698 em a Capela de Sam Gonçalo do Potigi de licença minha baptizou o Padre Francisco Bezerra de Gois a Deogenes filho legitimo de Domingos Paes Botão e de sua mulher Maria da Fonseca; forão Padrinhos o Capitam João da Fonseca e Bernada da Fonseca filha da viúva Isabel Ferreira. Simão Roiz (Rodrigues) de Saa”
 
Levou três dias lendo as outras imagens, descansando e voltando a ler dois dias depois, já se consegue decifrar alguma coisa. As abreviaturas são adotadas há muito tempo. São comuns na maioria das vezes”.

Provavelmente este seja o primeiro registro formal de um Diógenes em Terras Brasileiras.

“Causos e acasos”

Aos parentes, amigos e simpatizantes

Necessitamos da colaboração de todos para que possamos coletar os “causos” mais famosos da Família Diógenes. Se você sabe algum fato engraçado, inusitado ou mesmo dramático, relate em nosso blog. Passe um e-mail para kennedy.diogenes@gmail.com

Lembrem-se que essa ”casa” é nossa.

Um grande abraço.

Kennedy Diógenes.

Os Sapatos Mágicos

 

Por Kennedy Diógenes

No fim da década de 40, início de 50, do século passado, meu pai, Francisco Sebastião Diógenes, conhecido desde tenra idade por “Seu Chiquinho”, ingressou no Colégio Diocesano Santa Luzia, em Mossoró, para prosseguir seus estudos, uma vez que Pau dos Ferros não oferecia tais condições.

O Colégio Diocesano Santa Luzia, fundado em 02 de março de 1901, por Dom Adaulto Aurélio de Miranda, e mantido desde então pela Igreja Católica, sempre foi uma referência em educação de qualidade, passando por lá vários alunos que se transformaram em lideranças do Rio Grande do Norte, como os Ex-Governadores Dix-sept Rosado, Cortez Pereira, Tarcisio Maia e Lavoisier Maia, Ex-Prefeito de Mossoró e Ex-Senador Dix-huit Rosado, o Deputado Federal Vingt Rosado, dentre outros.

A partir de janeiro de 1946, o Diocesano foi dirigido pelo Padre Francisco Sales, nomeado pelo Bispo João Costa, deixando, como grande legado de sua administração, a construção da nova sede do Colégio Santa Luzia, inaugurada dez anos após, em 09 de junho de 1956.

Seu Chiquinho, como outros conterrâneos seus, passou pelo internato do Diocesano em uma época de extrema rigidez educacional, mormente sob a batuta do Padre Sales, mas que lhe propiciou uma riqueza de experiências naquela meninice, potencializada na mesma medida da distância e saudade dos seus familiares.

Acontece que, para amenizar a saudade e quebrar a monotonia clériga, a elaboração de um conjunto de peraltices, tantas quantas possam conceber as mentes férteis e criativas das crianças, era o principal lazer dos alunos do Diocesano, deixando alguns “causos” que merecem ser contados, como este que segue, dos sapatos mágicos.

Certo dia, no final de uma aula do Padre Gabriel, a turma começou um rebuliço danado, enquanto o equilibrado professor tentava controlar a situação. Seu Chiquinho, que sentava em uma das últimas fileiras, tirou uma folha de caderno, amassando-a e empapando-a com saliva, criando uma bola que foi arremessada em direção à primeira fileira de cadeiras, onde sentava um conterrâneo seu, Lineu, cuja rivalidade, naquele tempo, era bem acirrada.

O artefato jogado por Seu Chiquinho viajou de um lado ao outro da sala, acertando em cheio a orelha de Lineu, que, passando a mão na baba escorrida pelo pescoço, choramingou junto ao Professor já estressado, sendo este fato a gota d´água.

- Quem jogou esta bola de papel é um FP… Vocês sabem o que é FP? Bradou o Padre Gabriel, enfurecido, já suspeitando quem teria sido o autor da proeza.

Seu Chiquinho levanta a mão e diz: - FP, Padre, não é Francisco Pereira, aquele aluno que desistiu no semestre anterior?

O Padre Gabriel, irritadíssimo, expulsou Seu Chiquinho de sala, e ao mesmo tempo, veio se aproximando dele para, provavelmente, dar-lhe uma laborada com a palmatória. Mas Seu Chiquinho foi mais rápido, passando pela porta e puxando-a para fechar, fazendo com que o padre batesse com sua cabeça na quina desta, caindo ele próprio, seus óculos e tudo o mais que trazia nas mãos.

Com isso, o sacerdote-professor se intrigou de Seu Chiquinho, deixando de conversar e brincar com a turma, como antes se acostumara a fazer.

Alguns dias depois, estava Padre Gabriel sentado em um banco do pátio, lendo um breviário, quando Seu Chiquinho teve uma idéia. Foi ao seu quarto e pegou um par de sapatos usados que havia recebido de sua irmã, Cristina, calçando-os e se dirigindo ao lugar de recreio, a uma distância segura do professor. Jogou areia sobre alguns metros do cimento e fez carreira, deslizando sobre o piso do pátio, como se usasse patins. De lá do banco, o pároco ainda permanecia com os olhos no livro. Seu Chiquinho fez outra vez, deslizando uma distância maior do que a primeira. Quando se preparava para correr a terceira vez, o sisudo Padre Gabriel havia desaparecido para dar lugar ao velho e sorridente mestre, que aplaudia as manobras de Seu Chiquinho, pedindo que fizesse mais uma vez, fazendo as pazes definitivamente, graças aos sapatos mágicos.

Será que Tia Cristina não teria deixado guardado mais alguns desses sapatos mágicos, que tanto ajudam na reconciliação dos homens?

Segue abaixo e-mail carinhoso recebido pelo primo Licurgo Nunes Quarto, filho dos saudosos Des. Licurgo Nunes e Cristina Diógenes.

[LICURGO_QUARTO_PRIMEIRISSIMO.JPG] 

Caríssimo primo Kennedy: 

Parabéns pela grande iniciativa de elaborar o blog da família Diógenes. 

Você, como sempre, escrevendo textos excelentes. Espero que tenha comunicado a todos os “convivas”,  e que todos possam colaborar com o mesmo. É uma maneira de preservar a memória da nossa família, bem como proporcionar uma interação maior entre os parentes, além de servir de fórum para os que queiram expressar as suas idéias.

Abraços,

Licurgo Nunes Quarto.

PS.  Hoje, 19/11/2009, é o aniversário da Vovó Alzira (Alzira Diógenes, casada com Lafaiete Diógenes Maia).  Se fosse viva estaria completando 111 anos. Ela nasceu a 19/11/1898. É dia, também, de aniversário de morte de Dona Cristina, minha mãe. Hoje faz 18 anos de seu falecimento que ocorreu a 19 de novembro de 1991.

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